Desencontros – sobre o morrer

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Uma ligação e uma notícia, já esperada, mas deixada para digestão no tempo que ocorresse o comunicado da nota. Uma despedida. A morte. Um luto a ser feito….

Alguns choram de imediato, outro sorriem de nervoso, outros parecem nem sentir, estáticos. Já vi quem vivesse a dor em outras circunstâncias futuras ou em uma nova morte. Cada um responde de forma diferente. Alguns fazem de conta que é um novo dia e segue a vida preenchida de atividades, outros ainda, sofrem e quase desistem de sua própria existência.

Quase nunca há um preparo, ainda que diante de uma doença grave, de piora gradual, que não se espera uma recuperação. Faz parte da nossa cultura ocidental. Daí um desencontro, pois não estava previsto. Nosso desejo é que a pessoa esteja lá e de repente não está mais. Talvez um egoísmo por ansiar que simplesmente esteja lá, nos faça companhia, nos receba com abraço, nos acolha, ou até mesmo brigue, contrarie alguma regra estabelecida entre nós. Mas esteja lá. E nos coloca em cheque: existe uma data certa para a partida? E ainda nos expõe a uma partida fugaz. E pela humanidade que há em nós, sofremos mais ainda.

Então, não acreditamos, sentimos raiva, negociamos, nos deprimimos e quem sabe um dia, aceitamos. Essas são as fases do luto, estabelecido por Elisabeth Kubler-Ross – aprecio o olhar feito por ela. Nem sempre passamos por todas as fases, depende do grau de proximidade, dos laços estabelecidos, as dependências e estruturas emocionais de cada um.  Depende dos erros e acertos que se vivencia com aquele que não vive mais. Chora-se por ele e pelo enlutado.

Há algo que se possa fazer, antecipadamente? Não digo se preparar para a morte de alguém, mas se preparar para estar com ela em vida. Aproveitar o pouco ou o muito que se possa. O pouco vira muito. Um abraço bem dado, virará uma lembrança memorável. Reconhecer e fazer o que podes. Se acredita que pode fazer mais, faça, reconhecendo que está dentro das possibilidades. Não é possível curar a dor do outro ou viver a vida do outro, é possível afagá-lo, oferecer um ombro, palavras de conforto e de claridão. Vejo muitas feridas serem mais morosas na cicatrização quando há ofensas, culpas, raivas relacionadas ao que não se vive mais. Então a dor está naquele que se vai ou naquele que fica?

A importância do não julgamento e sim de uma reflexão, pois cada um sente de forma diferente e será exteriorizado de uma maneira distinta. Quem é aquela senhora que viveu por dezenas de anos e criou uma identidade com o seu parceiro? É trabalhoso olhar para essa nova identidade, que pode ou não surgir. Apenas despedir de si mesmo naquele momento? Morre o parceiro, mas também pode morrer uma mulher surgida em um convívio de cinquenta e poucos anos. Qual seria o caminho, deixar ela ir e permitir nascer algo novo ou esforçar-se para que ela fique? A morte também pode representar o nascimento de algo e aí voltamos naquelas etapas que Kubler-Ross estabeleceu.

Cada um tem seu tempo de luto e um caminho para recuperar destes golpes e quiçá, permitir ou não que nasça algo novo…

Minhas homenagens….

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